Como as mudanças climáticas impulsionam furacões como o Ida
Furacões se alimentam de calor, fonte de combustível cada vez mais comum em um mundo em aquecimento.

Um dia após o furacão Ida atingir a costa do estado da Louisiana, nos Estados Unidos, como uma tempestade de categoria quatro, socorristas pilotam barco de resgate por rua inundada na cidade de LaPlace. A tempestade intensificou rapidamente da categoria um a quatro em menos de um dia. Aumentos de intensidade tão acentuados em tão pouco tempo podem se tornar cada vez mais comuns devido ao aquecimento do Golfo do México causado pelas mudanças climáticas.
Um dia após o furacão Ida atingir a costa do estado da Louisiana, nos Estados Unidos, como uma tempestade de categoria quatro, socorristas pilotam barco de resgate por rua inundada na cidade de LaPlace. A tempestade intensificou rapidamente da categoria um a quatro em menos de um dia. Aumentos de intensidade tão acentuados em tão pouco tempo podem se tornar cada vez mais comuns devido ao aquecimento do Golfo do México causado pelas mudanças climáticas.
Após atingir o estado americano da Louisiana no domingo, 29 de setembro, como uma tempestade de categoria quatro, o furacão Ida avançou pelo Alabama e Tennessee em direção à costa leste dos Estados Unidos, gerando um clima ainda mais severo na forma de chuvas e ventos geradores de tornados.
Em seu rastro, o Ida deixou milhões de moradores sem energia em Nova Orleans e nos seus arredores — talvez por semanas. Os estragos no estado foram resultado de rajadas de vento que alcançaram quase 300 quilômetros por hora, enchentes de mais de dois metros e chuvas torrenciais.
A tempestade se intensificou em questão de horas, evoluindo de praticamente uma brisa a uma tempestade avassaladora, alimentada por bolsões de águas extremamente quentes no Golfo do México, cuja temperatura atualmente está em cerca de 30 graus Celsius, ou seja, vários graus acima da média.

Pessoas retiram galhos de sua propriedade em Bourg, na Louisiana, em 30 de agosto de 2021, um dia após a chegada do furacão Ida. À medida que socorristas vasculham os escombros, espera-se que o número de mortos no furacão Ida suba “consideravelmente”, alertou o governador da Louisiana na segunda-feira.
Pessoas retiram galhos de sua propriedade em Bourg, na Louisiana, em 30 de agosto de 2021, um dia após a chegada do furacão Ida. À medida que socorristas vasculham os escombros, espera-se que o número de mortos no furacão Ida suba “consideravelmente”, alertou o governador da Louisiana na segunda-feira.
“Há tanta energia armazenada que, assim que um furacão se forma, ele é alimentado com mais energia e se torna um monstro”, afirma Barry Keim, climatologista do estado da Louisiana.
Especialistas afirmam que o furacão Ida é um exemplo de como poderão ser as tempestades em um planeta em aquecimento. Ele atingiu a Costa do Golfo logo após a publicação de um importante relatório da Organização das Nações Unidas que encontrou fortes indícios de que as mudanças climáticas deixarão os furacões mais lentos, com mais precipitação e com mais capacidade de apresentar uma expansão explosiva.
“O Ida é mais um exemplo do aumento na intensidade dos furacões”, observa Jill Trepanier, especialista em climas extremos da Universidade Estadual da Louisiana.
À exceção do furacão Laura no ano passado e uma tempestade sem nome em 1856, nenhuma tempestade com ventos tão fortes havia atingido o estado. Os estragos e prejuízos econômicos causados pela tempestade podem chegar a US$ 80 bilhões, segundo as primeiras estimativas da AccuWeather, empresa de previsões meteorológicas.
Tempestades mais potentes por vir?
Para determinar a influência exata das mudanças climáticas sobre o furacão Ida, os cientistas terão que realizar os chamados estudos de atribuição. Nesses estudos, modelos de computador reexecutam as previsões sob as condições atmosféricas e oceânicas que existiriam com e sem emissões de gases de efeito estufa. Esses estudos comprovaram que as mudanças climáticas contribuíram substancialmente para a intensidade da recente onda de calor no noroeste do Pacífico, o furacão Harvey em 2017 e o furacão Florence em 2018. Mas podem levar meses para ser concluídos.
Na ausência desses estudos mais precisos, os cientistas reconhecem várias associações entre as mudanças climáticas e o furacão Ida, apontando para certas características compatíveis com o ar e os oceanos mais quentes.
Um dos aspectos mais impressionantes do Ida foi a velocidade com que passou de um ponto no radar a um grande furacão.
“Há poucos dias, ele nem sequer existia”, afirma Daniel Horton, especialista em climas extremos da Universidade Northwestern. Três dias antes de se tornar uma tempestade, “ao olhar o mapa, não havia nenhum sinal de furacão no Golfo”.
Esse tipo de crescimento acelerado é denominado pelos meteorologistas como intensificação rápida — definida como um aumento de cerca de 56 quilômetros por hora em menos de 24 horas. O Ida, entretanto, ultrapassou em muito esse parâmetro, com um aumento de cerca de 104 quilômetros por hora na metade desse intervalo.
O Ida surgiu de uma depressão tropical no sul do Caribe, um local comum de início de tempestades durante o pico da temporada de furacões. Na tarde de sábado, era um furacão de categoria um, com ventos de cerca de 165 quilômetros por hora. Mas então passou por Cuba e encontrou a chamada Corrente de Loop, uma corrente oceânica de águas quentes no Caribe que circula pelo Golfo do México.
“Essa água excepcionalmente quente basicamente criou uma supervia de águas quentes para essa tempestade. Ela impulsionou a energia da tempestade e permitiu que alcançasse a categoria quatro”, explica Keim.
Um estudo publicado em 2019 no periódico Nature Communications encontrou evidências preliminares de que as mudanças climáticas provavelmente deixaram a intensificação rápida mais comum. Nos últimos anos, alguns dos furacões mais devastadores foram resultado da intensificação rápida: o furacão Laura, em 2020, o furacão Michael, em 2018, e o furacão Harvey em 2017. E embora seja normal o oceano passar por períodos de aquecimento natural que podem impulsionar furacões, o estudo verificou um aumento na intensificação rápida além das flutuações naturais, afirma Kieran Bhatia, autor principal do estudo.
Ao contrário dos registros de precipitação ou estiagem, os registros de tempestades com intensificação rápida remontam apenas a cerca de 40 anos, observa Bhatia. Mas os cientistas correm para tentar entender o fenômeno e os efeitos das mudanças climáticas sobre ele.
“A intensificação rápida é um fenômeno que transforma uma tempestade de um desastre natural previsível, que pode ser detectado com cinco ou seis dias de antecedência, em algo imprevisível”, prossegue ele.
Diante de uma tempestade tão repentina, o estado da Louisiana teve dificuldades para se preparar. Nova Orleans não teve tempo de implementar uma evacuação obrigatória. Embora os meteorologistas sejam especialistas em prever os locais e ocasiões em que ocorrerão tempestades, prever sua intensidade é mais complexo e a intensificação rápida dificulta ainda mais essa previsão.
No futuro, os cientistas acreditam que não será mais possível prever furacões, embora se espere que sejam mais intensos. Ao longo do século 20, as temperaturas dos oceanos aumentaram incessantemente, não apenas na superfície, mas também em grandes profundidades. Furacões que poderiam ter sido contidos por águas oceânicas mais frias abaixo da superfície agora podem acessar um vasto suprimento de água quente, que serve para impulsioná-los.
“Os furacões que forem detectados provavelmente serão os mais intensos, o que significa que deve haver mais tempestades nas principais classes de furacões: as categorias três, quatro ou cinco”, conta Keim.

Um homem passa por um pedaço do telhado que foi arrancado de um prédio pelo furacão Ida no French Quarter, em Nova Orleans.
Um homem passa por um pedaço do telhado que foi arrancado de um prédio pelo furacão Ida no French Quarter, em Nova Orleans.

Um repórter e um cinegrafista documentam os efeitos do furacão Ida enquanto a tempestade inunda a Lakeshore Drive com as águas do lago Pontchartrain, em Nova Orleans, no dia 29 de agosto de 2021.
Um repórter e um cinegrafista documentam os efeitos do furacão Ida enquanto a tempestade inunda a Lakeshore Drive com as águas do lago Pontchartrain, em Nova Orleans, no dia 29 de agosto de 2021.

Os funcionários de um hotel reforçam o fechamento da porta para evitar que ela se abra com os fortes ventos após o local ter ficado sem energia em Nova Orleans, Louisiana, durante o furacão Ida. O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos afirmou que a tempestade atingiu o sul do estado.
Os funcionários de um hotel reforçam o fechamento da porta para evitar que ela se abra com os fortes ventos após o local ter ficado sem energia em Nova Orleans, Louisiana, durante o furacão Ida. O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos afirmou que a tempestade atingiu o sul do estado.

Veículos são danificados pelo desabamento da fachada de uma construção durante o furacão Ida em 29 de agosto de 2021, em Nova Orleans, Louisiana.
Veículos são danificados pelo desabamento da fachada de uma construção durante o furacão Ida em 29 de agosto de 2021, em Nova Orleans, Louisiana.

Ann Colette Boudreaux conforta seu neto, Abel, antes do furacão Ida, em Nova Orleans, Louisiana. Ida assolou o estado de Louisiana após chegar à costa como um poderoso furacão de categoria 4 na tarde de domingo, 29 de agosto.
Ann Colette Boudreaux conforta seu neto, Abel, antes do furacão Ida, em Nova Orleans, Louisiana. Ida assolou o estado de Louisiana após chegar à costa como um poderoso furacão de categoria 4 na tarde de domingo, 29 de agosto.

A chuva molha uma barreira de sacos de areia em Montegut, Louisiana, antes de o furacão Ida atingir a costa em 29 de agosto de 2021.
A chuva molha uma barreira de sacos de areia em Montegut, Louisiana, antes de o furacão Ida atingir a costa em 29 de agosto de 2021.

Detritos em um cruzamento no centro de Nova Orleans, em 29 de agosto de 2021, depois que o furacão Ida atingiu a costa mais cedo naquele dia. A tempestade de categoria 4 com ventos de aproximadamente 240 quilômetros por hora foi rebaixada para tempestade tropical, conforme atravessou o estado de Louisiana no dia 30 de agosto. Pelo menos uma morte foi registrada e milhares de pessoas ficaram sem energia elétrica. A tempestade chegou próximo a Port Fourchon, cerca de 160 quilômetros ao sul de Nova Orleans, às 12h55 de 29 de agosto.
Detritos em um cruzamento no centro de Nova Orleans, em 29 de agosto de 2021, depois que o furacão Ida atingiu a costa mais cedo naquele dia. A tempestade de categoria 4 com ventos de aproximadamente 240 quilômetros por hora foi rebaixada para tempestade tropical, conforme atravessou o estado de Louisiana no dia 30 de agosto. Pelo menos uma morte foi registrada e milhares de pessoas ficaram sem energia elétrica. A tempestade chegou próximo a Port Fourchon, cerca de 160 quilômetros ao sul de Nova Orleans, às 12h55 de 29 de agosto.

O chefe dos bombeiros de Montegut, Toby Henry, volta para seu caminhão na chuva, enquanto os bombeiros cortam árvores na rua em Bourg, Louisiana, após o furacão Ida ter deixado rastros. A poderosa tempestade de categoria 4 atingiu a costa do estado com ventos de cerca de 240 quilômetros por hora e, posteriormente, foi rebaixada para tempestade tropical, embora ainda continue sendo classificada como “extremamente perigosa” pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos.
O chefe dos bombeiros de Montegut, Toby Henry, volta para seu caminhão na chuva, enquanto os bombeiros cortam árvores na rua em Bourg, Louisiana, após o furacão Ida ter deixado rastros. A poderosa tempestade de categoria 4 atingiu a costa do estado com ventos de cerca de 240 quilômetros por hora e, posteriormente, foi rebaixada para tempestade tropical, embora ainda continue sendo classificada como “extremamente perigosa” pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos.

Lentidão ao longo da rodovia I-10 West conforme os moradores deixam a cidade de Vinton, Louisiana, em direção ao Texas antes da chegada do furacão Ida. Fotografia tirada com um drone
Lentidão ao longo da rodovia I-10 West conforme os moradores deixam a cidade de Vinton, Louisiana, em direção ao Texas antes da chegada do furacão Ida. Fotografia tirada com um drone

Grande parte do centro da cidade ao longo da Canal Street em Nova Orleans está às escuras devido aos danos na rede elétrica causados pelo furacão Ida em Orleans Parish. Em alguns edifícios, geradores foram utilizados para iluminação. É possível que os reparos na rede elétrica levem semanas, algo que preocupa os moradores. O Ida chegou a Louisiana no 16o aniversário do furacão Katrina, que também causou inúmeros danos.
Grande parte do centro da cidade ao longo da Canal Street em Nova Orleans está às escuras devido aos danos na rede elétrica causados pelo furacão Ida em Orleans Parish. Em alguns edifícios, geradores foram utilizados para iluminação. É possível que os reparos na rede elétrica levem semanas, algo que preocupa os moradores. O Ida chegou a Louisiana no 16o aniversário do furacão Katrina, que também causou inúmeros danos.

Um homem usa seu celular para tirar fotos das imponentes ondas ao longo da costa do lago Pontchartrain, no sudeste de Louisiana, conforme o furacão Ida se aproxima da costa em 29 de agosto de 2021. O furacão Ida chegou no 16o aniversário do furacão Katrina, uma tempestade de categoria 3 que devastou a Costa do Golfo. O Katrina matou mais de 1,8 mil pessoas e provocou prejuízos estimados em US$ 100 bilhões.
Um homem usa seu celular para tirar fotos das imponentes ondas ao longo da costa do lago Pontchartrain, no sudeste de Louisiana, conforme o furacão Ida se aproxima da costa em 29 de agosto de 2021. O furacão Ida chegou no 16o aniversário do furacão Katrina, uma tempestade de categoria 3 que devastou a Costa do Golfo. O Katrina matou mais de 1,8 mil pessoas e provocou prejuízos estimados em US$ 100 bilhões.

Terry Shelvin guarda um fardo de garrafas de água e alguns alimentos em seu carro, em Lafayette, Louisiana, enquanto o furacão Ida se aproxima no domingo.
Terry Shelvin guarda um fardo de garrafas de água e alguns alimentos em seu carro, em Lafayette, Louisiana, enquanto o furacão Ida se aproxima no domingo.

Funcionários reabrem um dique na Rota 1 de Louisiana após alguns motoristas terem perdido o prazo de fechamento e ficado presos em um local de passagem do furacão Ida em Golden Meadow, Louisiana.
Funcionários reabrem um dique na Rota 1 de Louisiana após alguns motoristas terem perdido o prazo de fechamento e ficado presos em um local de passagem do furacão Ida em Golden Meadow, Louisiana.

Um homem anda de bicicleta ao longo do rio Mississippi, perto do French Quarter, ao amanhecer, quando os primeiros efeitos do furacão Ida, uma tempestade de categoria 4 com ventos de 235 quilômetros por hora, são sentidos antes de sua chegada em Port Fourchon, Louisiana, pouco antes da 13h (horário padrão do leste dos Estados Unidos) no domingo.
Um homem anda de bicicleta ao longo do rio Mississippi, perto do French Quarter, ao amanhecer, quando os primeiros efeitos do furacão Ida, uma tempestade de categoria 4 com ventos de 235 quilômetros por hora, são sentidos antes de sua chegada em Port Fourchon, Louisiana, pouco antes da 13h (horário padrão do leste dos Estados Unidos) no domingo.

Jean-Luc Bourg, de 8 anos, pega uma aranha em frente à sua irmã Olivia, de 10 anos, enquanto seus pais, Jean Paul e Christina, tomam uma taça de vinho após protegerem a entrada de sua casa em preparação para o furacão Ida, em Morgan City, Louisiana.
Jean-Luc Bourg, de 8 anos, pega uma aranha em frente à sua irmã Olivia, de 10 anos, enquanto seus pais, Jean Paul e Christina, tomam uma taça de vinho após protegerem a entrada de sua casa em preparação para o furacão Ida, em Morgan City, Louisiana.

Uma pessoa busca abrigo em uma parada de trem antes da chegada do furacão Ida em Nova Orleans, Louisiana.
Uma pessoa busca abrigo em uma parada de trem antes da chegada do furacão Ida em Nova Orleans, Louisiana.

Trabalhadores da concessionária de energia elétrica enfrentam o vento do furacão Ida enquanto esperam a tempestade passar para iniciar os reparos em Nova Orleans, Louisiana. Ida atingiu a costa no domingo a sudoeste de Nova Orleans.
Trabalhadores da concessionária de energia elétrica enfrentam o vento do furacão Ida enquanto esperam a tempestade passar para iniciar os reparos em Nova Orleans, Louisiana. Ida atingiu a costa no domingo a sudoeste de Nova Orleans.

Uma jovem protege seu rosto do vento e da chuva causados pelo furacão Ida, em Nova Orleans, Louisiana.
Uma jovem protege seu rosto do vento e da chuva causados pelo furacão Ida, em Nova Orleans, Louisiana.

O detetive da polícia de Nova Orleans, Alexander Reiter, examina os destroços de uma construção que desabou durante a passagem do furacão Ida em Nova Orleans. A tempestade deixou toda a cidade sem energia elétrica e inundou as comunidades costeiras do estado de Louisiana conforme percorria seu caminho mortal pela Costa do Golfo. A tempestade ainda está ativa e possivelmente ocasionará mais destruição.
O detetive da polícia de Nova Orleans, Alexander Reiter, examina os destroços de uma construção que desabou durante a passagem do furacão Ida em Nova Orleans. A tempestade deixou toda a cidade sem energia elétrica e inundou as comunidades costeiras do estado de Louisiana conforme percorria seu caminho mortal pela Costa do Golfo. A tempestade ainda está ativa e possivelmente ocasionará mais destruição.
Tempestades lentas e com mais precipitação
Embora o futuro exato da intensificação rápida permaneça sob estudo, os cientistas podem afirmar com segurança que as elevações nas temperaturas deixarão os furacões mais lentos e com mais precipitação: para cada grau Celsius de aquecimento, a atmosfera poderá conter mais 7% de umidade — e, portanto, mais chuva — e, como os polos estão aquecendo mais rápido do que os trópicos, acredita-se que haja um enfraquecimento nos ventos que movimentam os furacões.
Quando o furacão Ida tocou o solo, seu avanço reduziu para cerca de 16 quilômetros por hora: não foi a tempestade com o avanço mais lento dos últimos anos, mas foi o suficiente para expor Nova Orleans a quase 40 centímetros de chuva e ventos fortes por mais tempo. Para efeito de comparação, no ano passado, o furacão Laura deslocou-se sobre o sudeste da Louisiana a 32 quilômetros por hora.
Além disso, a topografia da Louisiana desempenhou um papel importante na movimentação lenta do Ida. As tempestades dependem da água quente do oceano para se intensificarem e, quando o furacão atingiu o porto de Fourchon, os pântanos e brejos continuaram a lhe proporcionar energia e a manter sua intensidade intacta. Esses mesmos pântanos, entretanto, também ajudam a limitar um dos impactos mais letais dos furacões: “paredes” de água que sobem do mar. Havia uma previsão de que o furacão Ida produziria uma enchente de quase cinco metros, mas os primeiros relatos indicam que alcançou metade dessa altura. Meteorologistas propositalmente emitem alertas sobre os piores cenários para incentivar moradores dos locais de risco a evacuar.
Embora, em terra, o furacão Ida tenha avançado a um ritmo mais lento do que a média dos animais mais velozes, ele despejou chuva suficiente para provocar transbordamentos em diques na Paróquia de Plaquemines e enchentes em planícies ao sul de Nova Orleans. Parte dessas enchentes foi causada pelo fenômeno denominado maré de tempestade, que foi alto o suficiente para inundar cidades costeiras. E como os pântanos da Louisiana estão sendo eliminados à velocidade de um campo de futebol por hora, haverá cada vez menos proteção contra as enchentes provenientes das águas do oceano.
Conforme as mudanças climáticas tornarem as tempestades mais extremas, as comunidades costeiras terão que se adaptar a um clima mais perigoso.
“A conclusão é que atualmente se contam com planos, sejam planos de evacuação, infraestrutura ou empreendimentos, que não consideram a nova realidade (com alterações na frequência e intensidade de fenômenos extremos devido às mudanças climáticas), então é preciso atualizá-los”, alerta Horton, da Universidade Northwestern.
